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Adeus, Bandeira

Músico - Cândido Portinari
Vou-me embora pra Brodowski!
Lá sou amiga de Portinari,
Lá tem as cores que quero
Para o poema que escreverei...
Lá a existência é como uma pintura,
De tal modo freqüente
Que Dom Quixote de la Mancha,
Cavaleiro e ser transcendente,
Vem a saltar fulgente
Da tela para a lembrança...

E como farei mágica!
Andarei como poeta,
Escreverei: aqui nunca acabo...
Viverei de sonhar!
Vou-me embora pra Brodowski!
Em Brodowski não sou muda,
Lá tenho sempre outra canção
E um jeito puro
De escrever com o coração...

E quando finalmente me viste
De palavras e cores sem defeito,
Quando repentinamente me der
Vontade de chorar
— Lá sou amiga de Portinari —
Terei as cores que quero
Para o poema que escreverei,
Vou-me embora pra
Brodowski!

Fabiana Cristina Ventura
(Publicado em: Antologia de Poetas Brasileiros Vol. 108 - 2013)

Sensação

Flautista
 Cândido Portinari
Hoje o céu está de um azul tão doce...
O vento vai carregando as nuvens para longe...
Fecho os olhos e sussurro:
- Devagar cada coisa vai para o seu lugar...
Fito o céu outra vez, as nuvens já se foram:
- Aonde?
Na certa para onde precisem mais delas...
Fico pensando... E eu?
Onde é que precisam mais de mim?
Não sei...
Nem quero mais saber...
Volto os olhos ao céu
E num sorriso confidencio ao azul:
- Pessoa estava certo “Sentir é estar distraído”
Às vezes é melhor não pensar...

Fabiana Cristina Ventura

(Publicado em: Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea - Edição 2013)

Exercícios fotográficos ao modo Manoelês*

Pessoas apressadas. Sexta-feira. Hora de almoço. A Cidade Azul derrete ao calor do meio dia...
Num rio de pensamentos - aguardo o ônibus que em segundos aponta na estação, os passageiros se agitam e adentram rapidamente, a fim de fugir do sol escaldante.
Tateio minha bolsa a procura do cartão... Noto que a poucos passos, contrariando toda a agitação, vem caminhando um senhorzinho que aparenta ser bem idoso - já curvado pelos anos, com apenas uns brancos fiozinhos de cabelos arrepiados, a barba comprida, a camisa rasgada, a perna enfaixada...
O homem que subia os degraus interrompe o movimento, para e dá passagem ao senhorzinho – que lhe agradece com um sorriso, ele também sorri ao motorista e a cobradora.
Eu já estava parada, a espera, meu coração também... Por que essa cena tanto me impressiona?!
Passo o cartão. Giro a catraca. Observo: só há lugares vagos lá nos últimos bancos – próximo ao idoso.
Aproximo-me, sorrio, digo: oi!
Ele me sorri em resposta meneando a cabeça.
Olho discretamente o senhorzinho... Tem um ar de soberania e humildade e é esse misto que lhe confere um semblante sábio e sereno. Ele permanece quieto, como se sorrisse por dentro, que estranha força advém daquele ser?! Sinto como se uma áurea de luz o envolvesse e o deslocasse daquele espaço e tempo...
Coro de anjos
Cândido Portinari
Sinto-me comovida de um modo profundo e desconheço a razão... Talvez eu seja muito emotiva mesmo... Mas não é só isso!
É difícil explicar a mim mesma: sabe quando se sente uma energia boa, uma PRESENÇA forte que emana de alguém? É isso!
Sinto como se estivesse ao lado de Deus... Ou, de um anjo... Ou, de uma pessoa especial que sem nenhuma palavra me faz sentir o bem e tão bem, só com sua PRESENÇA, que não é apenas física... Lágrimas desobedientes percorrem minha face, por sorte - estou de óculos escuros, olho a janela, disfarço...
Como ando sempre acompanhada da minha melhor máquina fotográfica - a memória, aproveito e fotografo aquela PRESENÇA, para me lembrar que há dias em que a sensibilidade possibilita ver diferente e sentir além...

* Referência ao poema “O fotógrafo” de Manoel de Barros.

Fabiana Cristina Ventura

Um ilustre narrador

Hoje quero versejar sobre um exímio narrador, um contador de causos daqueles! De nome: Agenor. Para mim, ele era o amor, meu anjo, meu tudo, meu pai.
No entanto, antes de falar de meu pai, me dou licença de contar do encontro com um outro homem: Seu Luis. Já idoso. Sorveteiro. Bom de papo. Nós conhecemos numa parada de ônibus.
Era mais um daqueles dias – que eu estava feliz sem motivo (sintoma de poeta, talvez?), estava a fim de conversar, ouvir histórias... Esperando o ônibus acontece cada coisa... Se eu fosse contar todas as coisas inusitadas que já ocorreram... Fica para uma próxima...
Como o ônibus ia demorar meia hora, resolvi comprar um sorvete, foi assim que percebi que Luis queria papear, aproveitei o tempo da espera para conhecer aquele senhor, de olhos límpidos, sorriso transparente, falar vagaroso... Ele me contou da sua vida, da sua família, dos lugares onde viveu e trabalhou, falou da sua vinda à Rio Claro; eu quase não falei, escutei atenciosamente, quando Luis percebeu que estava falando demais, olhou para mim e disse: - Quem é que não tem história pra contar?
Num rápido pensar eu disse: - Só quem não tem memória...
Mas, Luis perspicaz logo emendou: - Mas mesmo assim, alguém pode contar a história por essa pessoa que não tem memória...
ARCO-ÍRIS/MÃE PRETA – o ônibus chegou... - Tchau Seu Luis, bom trabalho!
Guardei isso que ele disse... Ah meu coração... Impossível não lembrar o meu pai... Volto agora ao meu exímio narrador.
O pai... Nascido e criado na zona rural, sem escola... Numa cidadezinha do interior de São Paulo. O lugar era propício para surgirem histórias fantásticas, sem tv, computador e internet? Nem pensar! Só um “radinho” de se escutar moda de viola caipira e ouvir informações que vinham de longe trazendo notícias de outras terras... Para entreter-se o povo contava causos e mais causos... Agenor pequenino foi se alimentando desses causos... Cresceu. Trabalhou. Casou. Virou pai. E sempre que podia, fazia o que? Contava um causo antigo!
Ele contava como se fosse tudo verdade, eu não me continha e ria, ele ficava bravo, pois era tudo realidade, ai daquele que questionasse a veracidade das histórias!
Eu era tão menina... Esforço-me tentando relembrar essas histórias contadas, não consigo recompô-las... Ah se eu soubesse que ele ia tão cedo desta vida, eu teria registrado todas as histórias, só para preservar mais um pedacinho dele comigo, só para relembrá-lo nos causos, só pra manter a memória dele mais e mais...
Ainda hoje me chega aos ouvidos a voz dele me contando essas histórias de outrora, recordo-me um pouco de uma: a do lobisomem... Era uma história que vinha sendo contada desde há muito e modificada também, não era a versão tradicional do lobisomem, era uma história com detalhes e cores diferentes... Que múltiplas vozes havia se misturado naquela história? Para mim, aquilo era folclore e só, ah mas para o pai – era real! Como ele podia acreditar naquilo?!
Agora eu consigo pensar que essas crenças refletem muito o lugar onde ele viveu a infância, essas histórias cresceram com ele, passaram pela experiência de povoar o imaginário para desentediar...
Eu sinto falta dele, da voz dele, dos gestos dele, meu coração dói de saudade... Por isso, eu me dei licença de conversar com Seu Luis, de ouvir suas histórias, pois, assim a saudade chega de outro modo, na voz e nos olhos de outra pessoa que também gosta de narrar.
Não podemos perder isso, a experiência de contar, recontar, aí é que se criam laços e que a vida passa a valer a pena!

Fabiana Cristina Ventura

Dos heróis de criança: a simplicidade da infância

Era mais um daqueles dias quentes de Janeiro – quase 40°C. O ônibus: repleto de passageiros. Guardei as malas. Acomodei-me no último lugar...
Ia olhando a paisagem, imersa em meus pensamentos que flutuavam entre as recordações da aula do dia anterior e entre a vontade de chegar logo em casa... Relembrando a aula - ouvia os ecos das palavras de Paulo Freire, acerca da amorosidade de estar no mundo e com o mundo, da necessidade do diálogo...
- Posso por as malas aqui?
Observei que era um garotinho acompanhado de sua avó. Não havia lugar para os dois. A avó sentou-se numa poltrona e o menino sentou-se noutra, ao meu lado.
Tentei voltar aos meus pensamentos, mas percebi que a criança não havia colocado o cinto de segurança, como era uma viagem intermunicipal...
- Olha, quer colocar o cinto? É melhor... Eu te ajudo.
- Ah obrigado, é verdade, é mais seguro!
Desse modo, iniciamos um diálogo - que durou mais de uma hora!
O meu “lado” pedagoga me fazia querer perguntar (é claro) alguma coisa sobre escola, mas decidi não fazer isso (não dessa vez).
Lembrei-me de exercitar a escuta atenta e verdadeira, perceber o que o outro queria comunicar. Logo o garotinho começou a falar de várias coisas... Falou do sítio onde a avó mora, dos bichos que vivem por lá, das brincadeiras favoritas, do irmãozinho – com o qual passa as tardes jogando videogame... Então, pronto! Ele chegou ao assunto que queria – os games.
Ah os games! Assunto do qual eu pouco sei...
Dos jogos – comentou sobre vários personagens que são de histórias de super-heróis. Fiquei surpresa, uma vez que, ele contou detalhes de cada um... Wolverine, Batman, Coringa, Pinguim, Homem-Aranha, Dr. Octopus, Duende Verde e tantos outros, alguns, por mim, desconhecidos.
- Como você sabe tanto assim das histórias?
- Ah quando eu tenho curiosidade e interesse em um personagem, quero saber tudo sobre o mundo dele, então eu pesquiso, pesquiso... Até descobrir tudo o que quero, depois vou lembrando as coisas que gosto, é assim que gravo na cabeça as histórias.
Ponderei: simples assim... Dessa vez era o meu “lado” pós-graduanda que sussurrava: isso é uma lição - pesquisar até descobrir tudo o que tem curiosidade e sem desistir.
Com entusiasmo o menino indagou:
- Qual é o seu super-herói preferido? E o vilão?
- Nossa! Não sei, preciso pensar um pouco... (Era o meu “lado” adulta me fazendo esquecer as coisas de criança). Acho que o Homem-Aranha, talvez... E o Coringa!
- Legal! Uma coisa que eu não sei é... Por qual motivo o Coringa tem aquele sorrisão?
- Ah isso eu sei (finalmente eu sabia alguma coisa!). Vou contar...
Depois de uma breve explicação:
- Puxa, eu não sabia!
Como em algum momento eu havia comentado que era professora, ele curioso perguntou:
- Você gosta de ser professora? Deve ser legal né?
- Gosto! Eu aprendo com as crianças e elas aprendem comigo...
- Ah a minha professora também fala isso!
- E é verdade né? Por exemplo, você acabou de me dar uma aula sobre os heróis e os vilões!
- Ah já estamos chegando... Gostei de conversar com você viu, tchau Fabiana!
- Eu também gostei de conversar com você, tchau Mateus!
Fiquei feliz por conversar com aquele pequeno menino, recordei-me de coisas há muito esquecidas... Refleti sobre a simplicidade de ser criança, de se encantar com heróis e vilões, mas... Por que as crianças gostam tanto dessas histórias? Por que nós adultos nos esquecemos delas?
Creio que as crianças gostam devido ao conflito, à oposição de forças, à superação, à fantasia que emerge delas, criando outro mundo habitável.
E nós adultos? Talvez nos esqueçamos, pois, não conseguimos mais viver com plenitude o “aqui e o agora” mágico das crianças, temos muita pressa, estamos sempre ocupados... Deveríamos ser como o Flash! Só assim daríamos conta de tudo...
Por fim, é o meu “lado” poetisa que conclui. E ressoam - em minha mente e em meu coração – as palavras de Freire... Eu tinha vontade de dizer para ele:
- Paulo, é sim por meio do diálogo verdadeiro que podemos ser mais no mundo e com o mundo, quiçá podemos ser heróis com o poder do diálogo. 

Fabiana Cristina Ventura

Viola Caipira

Músico - Cândido Portinari
Tocador de viola,
Toque uma música
Bem bonita agora
Que alcance os céus
E chegue até meu pai...
Diga prele que essa pequena inda
Chora de saudade, toda vez
Que uma moda caipira é entoada.
Tocador de viola,
Leve-me a infância,
Reviva meu pai
Com seu chapéu de couro...
Tocador de viola,
Toque os versos de minha história
Pra essa tristeza ir simbora...

Fabiana Cristina Ventura
(Publicado em: Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Volume 115)

Divagações poéticas sobre o amor

Manuel Bandeira, dias atrás lendo o seu poema - “Arte de amar”, detive-me bastante tempo meditando sobre alguns versos.
Cabe aqui dizer: acredito que poesia não é para ser explicada e sim sentida (como já disseram vários poetas), então, peço licença para sentir mais acerca de seu poema.
Primeiramente, foi este seu verso que me chamou atenção: “Porque os corpos se entendem, mas as almas não”, como assim as almas não se entendem?
Quando você verseja que “Só em Deus ela pode encontrar satisfação”, igualmente creio que só nEle a alma terá um repouso completo... Mas, imagino que é possível haver o entendimento das almas (entre nós: seres efêmeros). 
Não estou aqui falando em “almas gêmeas”, nem creio nisto. Acho que para o amor é preciso que uma alma encontre eco na outra, para existir eco é preciso que haja som, para ter som é necessário comunicação, é nisto que eu creio: na conversa entre as almas.
Sabe Bandeira, ainda insisto em ponderar que o amor surge do encontro e do encanto das almas, das correspondências espirituais, portanto, em minha opinião, o amor é mais espiritual do que material, a matéria se esgota; o espírito não.
Pensando por outro lado, apesar de tudo... Neste tempo de consumos o amor se perde num emaranhado de anúncios, ele se dispersa, se despedaça... Bandeira, você acredita que há salvação para o amor?
Tenho certa dificuldade em entender os que têm pressa em amar, não entendo esses “amores instantâneos” que se desfazem brevemente.
Penso que o amor é um fugitivo do tempo, pois ele interrompe o tic-tac fulminante do relógio com um abraço na eternidade... O amor acontece em pequenas porções diárias de ternuras conquistadas, e, é consolidado no carinho vivenciado... É claro, não basta a materialidade do enlaçar as mãos, é preciso antes enlaçar as almas.
Serenata - Cândido Portinari
Certamente, não podemos compreender inteiramente a alma do outro (isso só Deus pode), mas podemos conhecer uma parte, aquela que alcançamos por intermédio dos olhos (e que vai muito além deles); é só um pedaço do infinito...
Bandeira, os poetas são todos solitários? Não encontram uma alma para se comunicar? Quem sou eu para falar do amor? Não entendo muito bem dele, talvez, porque o amor seja como a poesia: não é para entender e sim sentir... Bandeira, serei eu uma sentimental incorrigível?
Isso são só divagações... É melhor que eu volte para os meus poemas... Ah Bandeira, queria que você estivesse aqui para prosearmos um pouco.

12/06/2014
Fabiana Cristina Ventura

Cândido

Brodowski - Cândido Portinari
Das tristezas que vivi
Não quero mais recordar,
Aliás, já até esqueci...
Preciso me mudar, preciso viajar!
Quero mesmo é ir para Brodowski!
Conhecer a tela do sonhar:
Ver a terra de Portinari,
Ver em cada parte
Uma pincelada de sua arte
E me lembrar que a vida é assim
Feita de múltiplas cores em mim,
Ah, Cândido, Cândido...

Fabiana Cristina Ventura
(Publicado em: Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 106 - 2013)