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Entre linhas e laços

Neste mês minha avozinha completa 88 anos. Há alguns dias, a vó andava meio entristecida, talvez pela nostalgia que chega a certa idade...
Foi a minha irmã quem primeiro teve a ideia de arrumar alguma atividade para a vó se ocupar, então ela ponderou: “vou pedir para a vó me ensinar a fazer crochê”. E assim foi...
A vó iniciou seus ensinamentos e ficou contente por sentir-se importante, minha irmã foi aprendendo, logo, eu quis aprender também. E com que paciência a vó nos ensinou, desse modo, a vó se tornou mestra das duas netas professoras.
Entre fios percebi que as mãos de minha vó, já marcadas pelo tempo, são ainda muito ágeis, com que precisão e rapidez ela tece os pontos; as minhas mãos, ainda jovens, são trôpegas na nova tarefa e se atrapalham com os fios.
Entre linhas surgiram conversas: “vó com quem a senhora aprendeu a fazer crochê?”, e ela recordava que foi com a própria filha “era atividade dela, de escola, eu fui observando como ela fazia e aprendi”; “vó e agora deu nó?!”; “vó faz essa parte pra mim”.
No crochê também aprendi: para estar com o outro não precisa haver conversa o tempo todo, pois, o silêncio partilhado também é essencial, explico: enquanto eu fazia os pontos a vó dava umas olhadinhas para ver se estava certo, voltava a tecer, depois era eu quem observava a vó para ver melhor algum ponto, portanto, havia um silêncio de cumplicidade.
A ideia da minha irmã não era só aprender crochê, mas sim entreter e desentristecer a vó, dessa maneira, partilhamos prosas, sorrisos, silêncios... E entre linhas tecidas foram se estreitando os laços.

Fabiana Cristina Ventura  

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