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Memórias: Santo Antônio, a fé, a festa

Sempre gostei de ouvir histórias de infância, porque elas revelam as singelezas do olhar de criança.
Muitas vezes pedia a minha mãe que contasse suas lembranças... Ela recordava sobre a festa em honra a Santo Antônio e contava a seguinte narrativa:
* Era 1968, tinha dez anos, morava na Vila Aparecida com meus pais e irmãos. Meu pai era aposentado da Estrada de Ferro Sorocabana e na festa de Santo Antônio trabalhava como pipoqueiro.
Aguardava ansiosa essa festa: era dia de usar roupa nova! Minha mãe comprava uma peça de tecido para que a costureira confeccionasse as vestes que seriam estreadas nesse dia.
Chapéu, camisa e calça social, desse modo se vestia meu pai; vestidos floridos de mangas compridas, assim se vestiam minha mãe, eu e minhas irmãs; meus irmãos vestiam terninhos.
Íamos tão contentes para a estação, pegávamos o trem após o almoço, esse seguia lotado, nele podiam-se comprar sanduíches, biscoitos, refrigerantes, chocolate quente, café etc... Quando chegávamos à estação de Rubião Júnior já avistávamos a Igreja, ela era diferente, tamanha beleza, castelo alvo que no alto do morro se erguia.
A Igreja fervilhava de pessoas, vindas dos mais diversos lugares, nem o frio do mês de junho era suficiente para afastar os fiéis. A procissão era seguida por muitos, o caminho por onde passava o andor era todo decorado com arcos de flores, algumas crianças se vestiam de anjos, outras como o padroeiro, e subiam o morro acompanhando os adultos nas rezas e canções. Após a missa era distribuído o pão bento, minha mãe sempre guardava um pedaço na lata de mantimentos para que comida não faltasse.
Santo Antônio
Cândido Portinari
Aos pés do morro havia inúmeras barracas, vendiam: churrasco, maçã do amor, algodão doce, amendoim, pipoca, sucos, refrigerantes, quentão... Também tinham barracas que vendiam: bonecas de louça, cavalinhos de pau, bolas, chapéus e outras variedades... Além disso, havia o leilão de prendas e gados que era um dos mais esperados da região.
Com a venda das pipocas meu pai conseguia um bom dinheiro, como de costume, ele não conseguia atender a todos os fregueses, então, acabava se atrapalhando e colocando muito sal em alguns pacotes, era engraçado ver a expressão do freguês ao comer a pipoca salgada demais, isso me rendia boas risadas.
Meus irmãos e outras crianças brincavam de escorregar pelo morro e de trotear nos cavalinhos em meio à festa.
Os rojões estouravam no céu nublado da noite de Santo Antônio! Na gruta as velas iluminavam a noite toda em sinal da fé e da devoção dos fiéis...
Chegada à noitinha, infelizmente, tínhamos que ir embora, mas aguardaríamos ansiosos o próximo 13 de junho. *

Fabiana Cristina Ventura

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