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Dos heróis de criança: a simplicidade da infância

Era mais um daqueles dias quentes de Janeiro – quase 40°C. O ônibus: repleto de passageiros. Guardei as malas. Acomodei-me no último lugar...
Ia olhando a paisagem, imersa em meus pensamentos que flutuavam entre as recordações da aula do dia anterior e entre a vontade de chegar logo em casa... Relembrando a aula - ouvia os ecos das palavras de Paulo Freire, acerca da amorosidade de estar no mundo e com o mundo, da necessidade do diálogo...
- Posso por as malas aqui?
Observei que era um garotinho acompanhado de sua avó. Não havia lugar para os dois. A avó sentou-se numa poltrona e o menino sentou-se noutra, ao meu lado.
Tentei voltar aos meus pensamentos, mas percebi que a criança não havia colocado o cinto de segurança, como era uma viagem intermunicipal...
- Olha, quer colocar o cinto? É melhor... Eu te ajudo.
- Ah obrigado, é verdade, é mais seguro!
Desse modo, iniciamos um diálogo - que durou mais de uma hora!
O meu “lado” pedagoga me fazia querer perguntar (é claro) alguma coisa sobre escola, mas decidi não fazer isso (não dessa vez).
Lembrei-me de exercitar a escuta atenta e verdadeira, perceber o que o outro queria comunicar. Logo o garotinho começou a falar de várias coisas... Falou do sítio onde a avó mora, dos bichos que vivem por lá, das brincadeiras favoritas, do irmãozinho – com o qual passa as tardes jogando videogame... Então, pronto! Ele chegou ao assunto que queria – os games.
Ah os games! Assunto do qual eu pouco sei...
Dos jogos – comentou sobre vários personagens que são de histórias de super-heróis. Fiquei surpresa, uma vez que, ele contou detalhes de cada um... Wolverine, Batman, Coringa, Pinguim, Homem-Aranha, Dr. Octopus, Duende Verde e tantos outros, alguns, por mim, desconhecidos.
- Como você sabe tanto assim das histórias?
- Ah quando eu tenho curiosidade e interesse em um personagem, quero saber tudo sobre o mundo dele, então eu pesquiso, pesquiso... Até descobrir tudo o que quero, depois vou lembrando as coisas que gosto, é assim que gravo na cabeça as histórias.
Ponderei: simples assim... Dessa vez era o meu “lado” pós-graduanda que sussurrava: isso é uma lição - pesquisar até descobrir tudo o que tem curiosidade e sem desistir.
Com entusiasmo o menino indagou:
- Qual é o seu super-herói preferido? E o vilão?
- Nossa! Não sei, preciso pensar um pouco... (Era o meu “lado” adulta me fazendo esquecer as coisas de criança). Acho que o Homem-Aranha, talvez... E o Coringa!
- Legal! Uma coisa que eu não sei é... Por qual motivo o Coringa tem aquele sorrisão?
- Ah isso eu sei (finalmente eu sabia alguma coisa!). Vou contar...
Depois de uma breve explicação:
- Puxa, eu não sabia!
Como em algum momento eu havia comentado que era professora, ele curioso perguntou:
- Você gosta de ser professora? Deve ser legal né?
- Gosto! Eu aprendo com as crianças e elas aprendem comigo...
- Ah a minha professora também fala isso!
- E é verdade né? Por exemplo, você acabou de me dar uma aula sobre os heróis e os vilões!
- Ah já estamos chegando... Gostei de conversar com você viu, tchau Fabiana!
- Eu também gostei de conversar com você, tchau Mateus!
Fiquei feliz por conversar com aquele pequeno menino, recordei-me de coisas há muito esquecidas... Refleti sobre a simplicidade de ser criança, de se encantar com heróis e vilões, mas... Por que as crianças gostam tanto dessas histórias? Por que nós adultos nos esquecemos delas?
Creio que as crianças gostam devido ao conflito, à oposição de forças, à superação, à fantasia que emerge delas, criando outro mundo habitável.
E nós adultos? Talvez nos esqueçamos, pois, não conseguimos mais viver com plenitude o “aqui e o agora” mágico das crianças, temos muita pressa, estamos sempre ocupados... Deveríamos ser como o Flash! Só assim daríamos conta de tudo...
Por fim, é o meu “lado” poetisa que conclui. E ressoam - em minha mente e em meu coração – as palavras de Freire... Eu tinha vontade de dizer para ele:
- Paulo, é sim por meio do diálogo verdadeiro que podemos ser mais no mundo e com o mundo, quiçá podemos ser heróis com o poder do diálogo. 

Fabiana Cristina Ventura

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