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Um ilustre narrador

Hoje quero versejar sobre um exímio narrador, um contador de causos daqueles! De nome: Agenor. Para mim, ele era o amor, meu anjo, meu tudo, meu pai.
No entanto, antes de falar de meu pai, me dou licença de contar do encontro com um outro homem: Seu Luis. Já idoso. Sorveteiro. Bom de papo. Nós conhecemos numa parada de ônibus.
Era mais um daqueles dias – que eu estava feliz sem motivo (sintoma de poeta, talvez?), estava a fim de conversar, ouvir histórias... Esperando o ônibus acontece cada coisa... Se eu fosse contar todas as coisas inusitadas que já ocorreram... Fica para uma próxima...
Como o ônibus ia demorar meia hora, resolvi comprar um sorvete, foi assim que percebi que Luis queria papear, aproveitei o tempo da espera para conhecer aquele senhor, de olhos límpidos, sorriso transparente, falar vagaroso... Ele me contou da sua vida, da sua família, dos lugares onde viveu e trabalhou, falou da sua vinda à Rio Claro; eu quase não falei, escutei atenciosamente, quando Luis percebeu que estava falando demais, olhou para mim e disse: - Quem é que não tem história pra contar?
Num rápido pensar eu disse: - Só quem não tem memória...
Mas, Luis perspicaz logo emendou: - Mas mesmo assim, alguém pode contar a história por essa pessoa que não tem memória...
ARCO-ÍRIS/MÃE PRETA – o ônibus chegou... - Tchau Seu Luis, bom trabalho!
Guardei isso que ele disse... Ah meu coração... Impossível não lembrar o meu pai... Volto agora ao meu exímio narrador.
O pai... Nascido e criado na zona rural, sem escola... Numa cidadezinha do interior de São Paulo. O lugar era propício para surgirem histórias fantásticas, sem tv, computador e internet? Nem pensar! Só um “radinho” de se escutar moda de viola caipira e ouvir informações que vinham de longe trazendo notícias de outras terras... Para entreter-se o povo contava causos e mais causos... Agenor pequenino foi se alimentando desses causos... Cresceu. Trabalhou. Casou. Virou pai. E sempre que podia, fazia o que? Contava um causo antigo!
Ele contava como se fosse tudo verdade, eu não me continha e ria, ele ficava bravo, pois era tudo realidade, ai daquele que questionasse a veracidade das histórias!
Eu era tão menina... Esforço-me tentando relembrar essas histórias contadas, não consigo recompô-las... Ah se eu soubesse que ele ia tão cedo desta vida, eu teria registrado todas as histórias, só para preservar mais um pedacinho dele comigo, só para relembrá-lo nos causos, só pra manter a memória dele mais e mais...
Ainda hoje me chega aos ouvidos a voz dele me contando essas histórias de outrora, recordo-me um pouco de uma: a do lobisomem... Era uma história que vinha sendo contada desde há muito e modificada também, não era a versão tradicional do lobisomem, era uma história com detalhes e cores diferentes... Que múltiplas vozes havia se misturado naquela história? Para mim, aquilo era folclore e só, ah mas para o pai – era real! Como ele podia acreditar naquilo?!
Agora eu consigo pensar que essas crenças refletem muito o lugar onde ele viveu a infância, essas histórias cresceram com ele, passaram pela experiência de povoar o imaginário para desentediar...
Eu sinto falta dele, da voz dele, dos gestos dele, meu coração dói de saudade... Por isso, eu me dei licença de conversar com Seu Luis, de ouvir suas histórias, pois, assim a saudade chega de outro modo, na voz e nos olhos de outra pessoa que também gosta de narrar.
Não podemos perder isso, a experiência de contar, recontar, aí é que se criam laços e que a vida passa a valer a pena!

Fabiana Cristina Ventura

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