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Exercícios fotográficos ao modo Manoelês*

Pessoas apressadas. Sexta-feira. Hora de almoço. A Cidade Azul derrete ao calor do meio dia...
Num rio de pensamentos - aguardo o ônibus que em segundos aponta na estação, os passageiros se agitam e adentram rapidamente, a fim de fugir do sol escaldante.
Tateio minha bolsa a procura do cartão... Noto que a poucos passos, contrariando toda a agitação, vem caminhando um senhorzinho que aparenta ser bem idoso - já curvado pelos anos, com apenas uns brancos fiozinhos de cabelos arrepiados, a barba comprida, a camisa rasgada, a perna enfaixada...
O homem que subia os degraus interrompe o movimento, para e dá passagem ao senhorzinho – que lhe agradece com um sorriso, ele também sorri ao motorista e a cobradora.
Eu já estava parada, a espera, meu coração também... Por que essa cena tanto me impressiona?!
Passo o cartão. Giro a catraca. Observo: só há lugares vagos lá nos últimos bancos – próximo ao idoso.
Aproximo-me, sorrio, digo: oi!
Ele me sorri em resposta meneando a cabeça.
Olho discretamente o senhorzinho... Tem um ar de soberania e humildade e é esse misto que lhe confere um semblante sábio e sereno. Ele permanece quieto, como se sorrisse por dentro, que estranha força advém daquele ser?! Sinto como se uma áurea de luz o envolvesse e o deslocasse daquele espaço e tempo...
Coro de anjos
Cândido Portinari
Sinto-me comovida de um modo profundo e desconheço a razão... Talvez eu seja muito emotiva mesmo... Mas não é só isso!
É difícil explicar a mim mesma: sabe quando se sente uma energia boa, uma PRESENÇA forte que emana de alguém? É isso!
Sinto como se estivesse ao lado de Deus... Ou, de um anjo... Ou, de uma pessoa especial que sem nenhuma palavra me faz sentir o bem e tão bem, só com sua PRESENÇA, que não é apenas física... Lágrimas desobedientes percorrem minha face, por sorte - estou de óculos escuros, olho a janela, disfarço...
Como ando sempre acompanhada da minha melhor máquina fotográfica - a memória, aproveito e fotografo aquela PRESENÇA, para me lembrar que há dias em que a sensibilidade possibilita ver diferente e sentir além...

* Referência ao poema “O fotógrafo” de Manoel de Barros.

Fabiana Cristina Ventura

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